Ciência da Vida, de acordo com a India

Há cerca de um ano e meio eu estava em (mais uma) consulta médica. Formigamentos nos braços, pernas, quedas de pressão, tontura.. tantos sintomas que se repetiam que dessa vez resolvi ir em um médico especializado em imunidade. Alguma coisa tinha que estar errada com o sistema completo, não era possível.. Depois de uma longa e aprofundada consulta, o médico soltou categoricamente “nunca conheci uma menina de 24 anos tão franzida como você”. Assustei, claro, mas ele continuou “solte os ombros, relaxa a testa, respira fundo.. o que está acontecendo?”  Ele deixou claro que “se eu não quisesse ter um ataque cardíaco antes dos 30”, minha vida tinha que começar a mudar, naquele dia.

Recebi uma bronca pela maneira maluca que estava vivendo  – ou melhor dizendo, não vivendo – a vida. Ao invés de remédios, ele me receitou a yoga e uma vida com reflexão. Os resultados realmente são claros pra mim e pra quem me cerca. Desde lá tenho fortalecido minha crença na busca de qualidade de vida, auto-conhecimento, alimentação, espiritualidade – o que realmente tem feito toda a diferença na minha vida.

Esse post é mais um passo em busca desse conhecimento, pra entender melhor as Ciências da Vida.

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Ayurveda  é a medicina tradicional indiana que traduzida do sâncrito significado ayus “vida” e veda “conhecimento”. Sua história conta com influências da medicina chinesa, persa, grega e influencia práticas médicas feitas ainda hoje como há 5 mil anos atrás.  Acredita-se ter tido origem na primeira grande civilização do mundo – no vale do Rio Indo, na Índia – e, só começou a ter uma notoriedade no mundo ocidental a partir anos 20, com o incentivo do nacionalismo de Mahatma Gandhi.

Apesar de muito conectada aos conceitos de espiritualidade, não se trata de uma religião e sim uma medicina que acredita uma maneira holística de cuidar e viver a vida. Alias, aí vai: não é dieta, não é massagem, não é tratamento estético! Os centros de Ayurveda encontram grande procura de ocidentais, mas nem sempre está claro que trata-se de uma forma de medicina e não de um spa. Pra todo o tratamento que aplica Ayurveda com viés superficial, desconfie!

Na Índia, a classe médica acredita que a Ayurveda não é uma medicina para separar ocidente e oriente (em termos científicos) mas, sim, uma medicina para unir – ou seja, acreditar na Ayurveda não é necessariamente desqualificar todo o conhecimento médico e científico ocidental.  Segundo Bokulla Ramachandra Reddy “A vida tem quatro componentes: corpo, sentidos, mente e alma. Quando essas coisas estão equilibradas, a pessoa está saudável.” Caraka Samhita, completa “O corpo e a mente dos seres são a sede das doenças bem como dos prazeres. O uso correto, então, é a causa dos prazeres”.

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Um caso de aplicação da medicina indiana que me chamou atenção é da até-então-arquiteta, Laura Pires, que descobriu aos 25 anos que sofria de esclerose múltipla. Sentiu um cisco no olho em janeiro e em maio já não andava mais, nem tinha visão periférica.

Ela negou o tratamento convencional com corticóides  e embarcou com o então namorado Marcus Fahr Pessoa para a India, fazer um tratamento não convencional e até então desconhecido.  Entre óleos quentes nada semelhantes aos imaginados nas massagens convencionais, sopas miolo de carneiros e enfiar os olhos em Ghee – a manteiga clarificada, considerada ouro líquido para eles – o tratamento deu um resultado surpreendente. O livro Em busca da cura, escrito por Marcus, narra sua trajetória nesta fase de tratamento intensivo.

Importante ressaltar: o tratamento intensivo de Laura para esclerose não é a mesma receita da rotina de uma vida ayurvédica. Há dois tipos de profissionais diferentes na Ayurveda. Terapeutas Ayurvédicos são focados na medicina preventiva e médicos ayurvédicos focam no tratamento de doenças já em manifestação. 

Laura tem hoje uma saúde completa e recuperada, largou a profissão e se especializou na Ayurveda. Segundo ela, “O meu maior aprendizado é o comprometimento comigo mesma.” Todo ano continua indo para a India para buscar tratamentos contínuos e especializar profissionalmente e lançou o livro O Sabor da Harmonia – Receitas Ayurvédicas para o Bem-Estar com dicas para uma saúde equilibrada. 

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O conceito de equilibro é o grande direcionador desta filosofia.

Segundo Márcia De Luca, representante de Deepak Chopra no Brasil, em entrevista para SuperInteressante, “tanto nós quanto o Universo somos constituídos da mesma substância. Daí a importância de se viver em harmonia com a natureza e a ênfase no cuidado constante com a saúde. O ayurveda é um sistema mais preventivo que curativo e preconiza que, se o ser humano viver integrado com os ritmos da natureza, ele terá saúde e saúde não é somente a ausência de doença, mas um estado de bem-estar maior, no qual a pessoa se sente bem só por ser.”

Segundo eles, todas nós somos compostos de três humores – chamados de doshas –  compostos pela união dos cinco elementos -fogo, terra, água, ar e espaço. Sendo eles Vata, é formado pelos elementos terra e espaço,  Pitta a partir do fogo e da água e os elementos terra e água resultam no Kapha. Os doshas são responsáveis respectivamente pela atividade, produção de energia e estabilidade do organismo.  A quantidade de cada dosha em cada pessoa determina nossa composição essencial, chamada de  Prakriti – nosso DNA Dóshico. Apesar de ser determinada no momento da concepção, o Pakriti pode se encontrar em mutação e é influenciado por diversos fatores como pensamentos, comidas, cheiros, hábitos e até mesmo a profissão que escolhemos. Essa nova composição “momentânea/transitória” é chamada de Vikriti – e, para que se tenha saúde, é necessário que a constituição natural e a momentânea coincidam o que fundamenta o conceito de equilíbrio Ayurvédico.

É essencial conhecermos qual é nosso Vikriti/Pakriti para qualquer processo Ayurvédico – enquanto você não vai em um especialista, pode fazer online pra ter uma noção de qual é seu dosha dominante e como você deve equilibra-lo.

 

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 De acordo com Laura Pires – agora, terapeuta da medicina indiana – “o fator número um que desestabiliza a nossa saúde são as emoções, o fator número dois é o estilo de vida, o fator número três é a alimentação e o fator número quatro é o clima a que estamos expostos.”

Por isso, para cada perfil de dosha, existe uma importância específica do arsenal terapêutico da Ayurveda: meditação, atividades físicas adequadas, dietas estruturadas e massagens terapêuticas.

Se você sabe dosha, abaixo estão alguns pontos resumidos dos conceitos centrais – e você pode checar detalhes de VataKapha, Pitta em cada link e diversos outros na internet.. Mas claro que não é tão simples assim, estamos falando de uma medicina de mais de 5 mil anos! A idéia é entender um pouco mais de novas formas de cuidar do bem-estar e da saúde, o mais recomendado é claro encontrar um especialista que analise na profundidade cada pessoa. Nesse meio tempo, nada impede de buscar uma vida mais saudável com algumas dicas dessa medicina milenar. 🙂

KAPHAPITTAVATA

 

Para aprofundar:

Artigo de Antônio César Deveza, na Revista de Medicina da USP | Ayurveda – A medicina clássica indiana 

Reportagem Especial da SuperInteressante | Ayurveda

Programa da Bela Gil com dicas e a Laura Pires como convidada | Bela Cozinha 

Reportagem da Laura Pires | Revista Donna

O site da Laura Pires! | laurapires.com.br 

(ops, acho que meio que virei fã dessa mulher!)

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