Vem cá, vamos conversar

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Serião?

Temer assumiu.

E, como esperado, já em seu primeiro dia nos presenteou trazendo de volta o retrato da política atrasada do nosso país pro palco. Sem grandes surpresas aí, certo? Ninguém — nem os próprios eleitores da Chapa Dilma-Temer — tinham a ingenuidade de que seria diferente. Mas vamos lá: primeiro, não é porque o vice “também é ruim” que o processo de julgamento da irresponsabilidade administrativa não deveria seguir, já tá mais do que na hora do Brasil encarar de frente suas escolhas e os políticos encararem suas responsabilidades. Segundo, que o que estamos vivendo não é um movimento simplista como apenas tirar Dilma ou PT do poder, é sobre investigados, serem julgados, independente de quem seja — sim, também estamos vaiando o Aécio — ou que partido seja.

Mas esse texto não é sobre isso. Esse texto é sobre o turbilhão de argumento furado que surgiu da turma do “deixa disso” quanto ao retrocesso que ele apresentou. Tanta gente interessante, estudada, falando tanta coisa sem a menor reflexão. Se você ainda acha que não tem nada demais do ministério do presidente Michel Temer não representar nenhuma minoria, vem cá, vamos conversar.

1. “Amigo, tem que ter gente competente. É governo. Não é elenco do power rangers”

Yes! Concordo! O problema é que esse argumento está supondo que não temos nesse país; mulheres, negros ou outras minorias, competentes para os cargos e sabemos que isso não é verdade. É uma ignorância monstruosa e uma injustiça. Já existem algumas (várias) listas circulando que comprovam isso, com mulheres competentes e — choquem — com currículo limpo, sem corrupção, expoentes em pesquisa científica, referência em empreendedorismo. O simples fato de ter que ter listas pra comprovar que temos, sim, muita e até superior competência feminina é tão 1800.

O que mais surpreende desse argumento é que além de tudo defende um ministério que conta com 7 dos ministros que estão envolvidos na Lava Jato e, portanto, acabaram de ganhar foro privilegiado. Foi competência que colocou eles lá ou pura e velha política?

Você já deve ter visto a lista com o exemplo do Canáda com seu ministério no ano passado, mas se ainda não prestou atenção, aqui vai de novo.

  • “A ministra da Ciência é uma cientista (oh, e ela tem um prêmio Nobel)
  • O ministro dos Transportes é um astronauta.
  • O ministro dos Esportes e das Pessoas com Deficiências é um atleta paralímpico
  • O ministro de Famílias, Crianças e Desenvolvimento Social é um economista que estuda a pobreza
  • A ministra dos Direitos da Mulher é uma mulher
  • O ministro de Instituições Democráticas é um refugiado muçulmanoDois dos ministros são de povos nativos (das etnias Kwakwaka’wakw e Inuit)
  • Também há ministros com várias crenças (ou descrenças): sikh, islâmicos, ateus etc”

E porque isso? “Because it’s 2015” segundo o primeiro-ministro canadense. Ponto pro Canadá.

2. “O Temer não é machista ele criou a delegacia da mulher, agradeçam”

Que incrível. Quer dizer que em um país com a 5ª maior taxa de feminícidio do mundo, do ladinho de países como El Salvador, conquistamos o direito de ter uma delegacia só pra essas nossas queixas? Uau. Obrigada,Cii Temer. Apoiar a formalização de um direito básico de segurança é bem diferente do que acreditar na competência e liderança feminina. É a mesma lógica de aceitar que escravizar negros tá errado (direito básico), mas olhar com cara feia se descobre que o médico que você marcou pra se consultar era um negro (reconhecimento de igualdade intelectual). Por favor, coleguinha, você não pode acreditar realmente no que está dizendo, né?

3. “Com a crise que está aí e o pessoal preocupado com ‘o que o cara tem no meio das pernas’”(É sério, foram nessas palavras. Acreditem.)

Grosserias à parte, a falta de representabilidade é, sim, parte essencial da crise que vivemos. A crise econômica e social está muito ligada a falta de líderes e gestores políticos que realmente representem a população. Um minitério só com homens, brancos, heterosexuais e acima dos 50 é a cara do nosso país? Precisamos de novos líderes, competentes, expressivos e não-corruptos (como se fosse um diferencial aceitável “não ser corrupto”, mas ok). Vamos lá, quem vocês vão votar nas próximas eleições? Vocês veem alguma liderança que te representa? A grande maioria das pessoas que converso diz, sem esperança, que não e, com essa política do retrocesso e camadarismo, continuará assim.

Esse argumento ainda ignora a teoria das janelas quebradas que comprova o fato de que, se pequenos delitos acontecem e estes não são recriminados, há maior margem para crimes maiores e mais graves. É o modelo americano de combate ao crime que reduziu drásticamente os delitos em Nova York desde 1994, enquanto era ainda uma cidade bastante perigosa, foi chamado de “política da tolerância zero”. Ou seja, esse argumento de “nós temos problemas maiores” não tem aplicabilidade nenhuma! Estamos em crise, sim, mas não vamos tolerar retrocessos e ignorar conquistas sociais por causa disso.

Então, prepare-se, caro colega.

Nós vamos, sim, fazer um escandâlo.

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